Endrick: Siga o exemplo de Ancelotti e mantenha a espiritualidade longe do esporte

Endrick fez sua entrada em campo no confronto contra a Noruega aos 13 minutos da etapa complementar, quando o placar ainda estava zerado. Logo após, recebeu um passe longo de Vinícius Jr, que variava entre 30 e 40 metros, e se viu frente a frente com o goleiro Nyland, que saiu apressadamente do gol, numa postura similar à de um jogador de handebol, com braços e pernas abertos na tentativa de evitar o que seria um gol fácil para qualquer atacante. No entanto, Endrick não conseguiu dominar a bola como desejava; ela escapuliu um pouco e, ao tentar afastá-la do goleiro, acabou exagerando e mandou a bola para fora do gol.

A comparação com Ronaldo em 2006 é inevitável. Naquela ocasião, o craque estava fora de forma e recebeu um passe parecido de Kaká. Ele conseguiu driblar o marcador e finalizou em um gol vazio. Semelhantes comparações podem ser feitas com outros atacantes brasileiros que participaram das últimas Copas do Mundo, como Romário e Luís Fabiano. O que se esperava era que ele marcasse.

Como Endrick lidou com essa falha? Essa escolha errada, que vale lembrar aconteceu quando ele apenas tinha 19 anos e ainda possui um futuro promissor, teve grande impacto na derrota do Brasil. Exatos 20 minutos após esse lance perdido, Haaland mostrou maestria ao marcar um gol e repetiu a dose seis minutos depois.

“Senti muito pela chance desperdiçada. Depois disso, até conversei com Deus; agradeci pela oportunidade, mas foi uma situação em que eu poderia ter feito melhor. Não consegui concretizar isso, mas sou grato a Deus pela oportunidade”, comentou ele.

Se foi Deus quem lhe ofereceu essa “oportunidade” de marcar em vez de Vinícius Jr., então quem impediu que isso acontecesse? É impressionante observar como a forte religiosidade entre jogadores brasileiros pode interferir no desempenho em campo. O goleiro Fábio, do Fluminense, afirma não analisar os adversários nas cobranças de pênaltis porque acredita que é Deus quem decide para qual lado ele deve pular.

A relação de Endrick com Deus vai além de uma simples conversa sobre seu erro em um momento decisivo da Copa. Em uma entrevista à Revista Placar em 2024, ele declarou não acreditar na ciência e afirmou não precisar de acompanhamento psicológico: “Meu psicólogo é primeiramente Deus. Não preciso abrir meu coração para mais ninguém. Tenho Deus na minha vida; não preciso desabafar com alguém que nem conhece meus pais ou minha história pessoal. Então, só converso com Deus e oro”.

Ele parece reduzir uma sessão psicológica a meros “desabafos com alguém desconhecido”.

Já o lateral colombiano Daniel Muñoz expressou que não lamentava a eliminação da sua seleção para a Suíça nos pênaltis após uma partida onde seu time teve mais chances: “Foi o desígnio de Deus”, afirmou.

Quando esses jogadores entregam tudo nas mãos de Deus, acabam por abdicar da responsabilidade em melhorar suas habilidades técnicas. Se conquistam vitórias é porque foram favorecidos por Ele sobre os adversários; enquanto as derrotas podem ser vistas como uma forma de descontentamento divino. Essa simplificação é arriscada. Imagino como seria um time repleto de jogadores como Endrick: durante as orientações táticas do treinador, será que eles rezariam?

Endrick precisa focar mais no aprimoramento técnico ao invés de conversar apenas com Deus. É fundamental que alguém lhe diga sobre seu enorme potencial e que a última etapa para se tornar um jogador excepcional depende exclusivamente dele mesmo. A ajuda divina nesse aspecto é inexistente.

Ele poderia se inspirar em Carlo Ancelotti, que respondeu à repórter Mônica Bérgamo sobre rezar antes das partidas: “Deus tem preocupações mais importantes do que jogos de futebol”.

 

By Bauru Report

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