Na minha juventude, durante os anos 90, a expectativa por um novo lançamento de Jim Jarmusch, renomado diretor do cinema independente dos Estados Unidos e também músico, gerava em mim uma grande animação. A essência jovem e o espírito rebelde presentes em suas obras sempre me inspiraram a acreditar que a vida tinha seu valor.
Recordo-me de quando residia em Brasília e descobri uma locadora que organizava seus filmes por diretores. Fiquei tão empolgado que quase tive um colapso ao desejar assistir a todas as produções de diversos cineastas. Sou alguém que vive com TOC e sinto uma necessidade compulsiva de concluir a obra de um diretor, escritor ou músico. Enquanto isso não acontece, não consigo encontrar paz. Porém, quando finalmente concluo essa jornada, fico tão sobrecarregado que quase me sinto doente. Mas é preferível essa sensação a passar fome criativa.
Nessa locadora, havia uma seção dedicada exclusivamente aos filmes de Jim Jarmusch. Já tinha assistido a alguns títulos dele e foi fácil completar minha coleção com o restante das suas obras.
Desde então, muitas mudanças ocorreram no mundo e na minha vida pessoal, mas Jarmusch permaneceu inalterado; agora ele conta com 73 anos. Seus cabelos brancos não são novidade — ele os possui desde os 15 anos. E sua guitarra não ajuda na percepção da passagem do tempo: Keith Richards, por exemplo, está com 82 anos e parece destinado a viver até os 120, desde que o mundo não chegue ao fim antes disso.
No dia anterior, tive a oportunidade de ver o mais recente trabalho de Jarmusch, que recebeu o Leão de Ouro em Veneza — “Pai mãe irmã irmão”. Esse filme polêmico superou o angustiante “A voz de Hind Rajab”, um drama tunisiano com produção francesa. Composto por três partes, este formato parece ser do agrado do cineasta conhecido por “Estranhos no paraíso”. O primeiro segmento se destaca como o maior e o melhor, apesar de sua abordagem anedótica que se confirma ao final.
Tom Waits como pai Bukowskiano
No papel principal do primeiro episódio está Tom Waits, um músico icônico e um dos atores mais frequentes nas obras de Jarmusch. Ele interpreta um pai idoso e dependente químico — embora já limpo há alguns anos — que vive isolado em uma casa de madeira entre montanhas cobertas de neve no sul dos Estados Unidos. Seus filhos Adam Driver e Mayim Bialik, ambos inseridos no mundo corporativo e estranhos à realidade do pai, fazem uma visita inesperada. Recentemente separado, Driver ocasionalmente ajuda financeiramente o pai — para desgosto da irmã — levando consigo uma cesta básica que inclui bourbon e molho de tomate com queijo ralado já incluído. A animosidade da filha em relação ao pai viúvo é palpável quando ela observa um pedaço do Rolex dele escapando do pulso; isso levanta questões sobre a autenticidade da pobreza dele: será que aquele homem é realmente quem ela conheceu toda a vida?
Este episódio reflete as diferenças geracionais entre pais e filhos e as barreiras comunicativas ainda presentes entre eles. Os diálogos são repletos de falhas semânticas e silêncios desconfortáveis que geram situações involuntariamente engraçadas. A visita dura menos de uma hora, apesar da longa viagem feita pelos filhos até chegarem ao pai; o final é surpreendente. Tom Waits nunca esteve tão bem em cena.
A influência de Tchékhov
O primeiro episódio traz elementos reminiscentes do estilo Tchékhoviano nas interações familiares, lembrando também Woody Allen — talvez um dos roteiristas contemporâneos mais próximos desse estilo nos Estados Unidos. No entanto, notei algo curioso: enquanto os irmãos dirigem até a casa do pai, a irmã menciona não visitá-lo há dois anos. Isso levanta uma dúvida: como pode ela se surpreender com os livros — como os de Reich e Nietzsche — encontrados na estante do pai “maluco”? Seria isso uma falha no roteiro? E quem escreveu? Ah sim: foi Jarmusch! Vale ressaltar que vejo mais problemas nos filhos normativos do que no enigmático pai epígono de Thoreau.
Charlotte Rampling
No segundo episódio ambientado na Irlanda, Charlotte Rampling brilha como mãe das duas mulheres centrais da narrativa. Sua personagem é metódica e elegante, repetindo traços da filha apresentada anteriormente. Jarmusch utiliza uma técnica intrigante ao alternar entre os tipos humanos nas histórias; assim como o pai do primeiro episódio reflete características na filha mais nova da mãe no segundo ato, Cate Blanchett também faz ecoar Adam Driver em sua interpretação.
A trama gira em torno de um chá da tarde marcado pela mãe em seu apartamento localizado em um bairro classe média de Dublin. A matriarca deve ter cerca de 70 anos e é autora de romances sentimentais. Sua filha mais jovem é representada pela excêntrica Vicky Krieps; ela é lésbica e viciada em tecnologia moderna – seu cabelo roxo contrasta com a personalidade nerd da irmã mais velha interpretada por Cate Blanchett que tenta evitar qualquer deslize diante da mãe.
A dinâmica familiar aqui retratada é caricata e rígida, mas ainda assim apresenta certo charme devido à atuação cativante de Rampling e à beleza das ruas onde se passa a história. O clima leve da reunião familiar é frequentemente ameaçado por algo obscuro subjacente.
Indya Moore e Luka Sabbat
O terceiro segmento se destaca por seu tom moderno e pop; traz os gêmeos Indya Moore e Luka Sabbat em Paris discutindo sobre a herança deixada pelos pais após um trágico acidente aéreo envolvendo um monomotor pilotado pelo pai deles. Durante essa visita ao apartamento vazio dos pais agora disponível para aluguel, os irmãos posam para fotos dignas das passarelas internacionais — uma verdadeira marca registrada do estilo Jarmusch.
É curioso notar que o filme inicia-se com temas mais maduros e vai rejuvenescendo conforme avança para sua conclusão com personagens jovens imersos numa cultura voltada para o “poder jovem”, onde os pais simplesmente não estão presentes – questionando assim a transição dessas sabedorias antigas para as novas gerações através da oralidade.
Jarmusch estabelece conexões entre os episódios através de cenas recorrentes: jovens skatistas pelas ruas,já mencionados Rolex autênticos,e brindes com água – ou não – além duma frase comum desconhecida por alguns personagens do filme. Qual seria o significado dessas repetições? Múltiplos ou nenhum? Em entrevista recente, Jarmusch declarou ter feito tudo isso apenas para se divertir; tenho minhas dúvidas quanto à sinceridade dessa afirmação.
No entanto, ainda sinto entusiasmo ao saber que mais um filme do talentoso Jim Jarmusch está sendo exibido nos cinemas hoje em dia; isso me lembra da importância contínua da vida.
Henrique Wagner é poeta e crítico literário. Publicou vários livros incluindo As costelas de Michelângelo.
