A Apple parece ter iniciado testes com memórias fabricadas na China em seus dispositivos, refletindo a atual crise global no setor de chips e a crescente tensão comercial entre os Estados Unidos e a China. Essa informação foi inicialmente divulgada pelo Financial Times e gerou repercussão em diversos meios de comunicação, incluindo a CNBC.
Conforme relatado, a gigante da tecnologia está avaliando chips de DRAM produzidos pela ChangXin Memory Technologies, conhecida como CXMT, uma empresa estatal chinesa. Até o momento, essas avaliações estão limitadas aos produtos que serão vendidos exclusivamente no mercado chinês.
A decisão de testar esses componentes busca atender a duas metas principais:
- ampliar a diversificação do fornecimento em um cenário de escassez severa;
- reduzir os custos dos componentes, que dispararam e já levaram a Apple a aumentar os preços de seus Macs e iPads.
O que é a CXMT e qual o interesse da Apple
A CXMT se posiciona como a quarta maior produtora de DRAM no mundo, ficando atrás apenas da Samsung, SK Hynix e Micron.
Atualmente, detém cerca de 11% da capacidade global de produção, com previsão de alcançar até 15% até 2028, à medida que novas fábricas sejam inauguradas em Hefei, Xangai e Pequim. A companhia se especializa na fabricação de DRAM, tipo de memória amplamente utilizada desde smartphones até servidores.
Um aspecto interessante dessa trajetória é que a CXMT era relativamente desconhecida fora da China até pouco tempo atrás e enfrentava prejuízos financeiros.
No entanto, a escassez no mercado de memória alterou esse panorama. Apenas no primeiro trimestre de 2026, registrou um faturamento aproximado de US$ 4,8 bilhões, equivalente a quase R$ 24,7 bilhões, após anos acumulando perdas.
Os valores são baseados na cotação do dólar atual, estimado em R$ 5,15.
Para a Apple, incluir a CXMT entre seus fornecedores representa uma nova fonte para DRAM. Isso não só aumenta seu poder negocial nas tratativas com as empresas sul-coreanas e com a americana Micron como também oferece uma proteção contra futuros aumentos devido à escassez do produto.
No entanto, especialistas ressaltam que quase toda produção da CXMT já está comprometida com outros clientes, o que pode limitar um impacto imediato nos preços.
Limitações das memórias chinesas ao mercado local
A CXMT está listada na lista 1260H do Pentágono, que inclui empresas consideradas ligadas às forças armadas da China. Embora não haja proibição para compras por parte da iniciativa privada dessas empresas, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos não firma contratos com elas ou com aqueles que utilizam seus componentes.
Dessa forma, a Apple se vê diante de um dilema: utilizar memórias chinesas em larga escala pode comprometer vendas significativas para o governo americano e gerar repercussões políticas indesejáveis ao incorporar chips originados em contextos delicados.
Diante disso, decidiu restringir os testes aos dispositivos destinados ao mercado chinês como forma de minimizar possíveis conflitos com Washington.
Paralelamente, Tim Cook, CEO da Apple, tem liderado esforços para realizar lobby junto ao governo americano visando obter autorização para uma utilização mais ampla dos chips.
“Seria um erro grave”, comentou o deputado americano John Moolenaar sobre as possíveis consequências da Apple optar por trabalhar com a CXMT.
A resistência à ideia não é nova; em 2022, a empresa já havia enfrentado críticas em Washington ao considerar fornecedores chineses para memória. Nesse contexto crítico estava o então senador Marco Rubio, hoje secretário de Estado.
Cenário crítico no mercado de memória
Toda essa situação é resultado do aperto no mercado de memórias. A demanda crescente por chips utilizados em Data Centers voltados para inteligência artificial esgotou rapidamente a oferta global disponível de DRAM.
As fabricantes Samsung, SK Hynix e Micron têm priorizado as memórias com alta largura de banda voltadas para servidores desse segmento lucrativo, diminuindo assim sua capacidade voltada para produtos voltados ao consumidor final.
Esse desequilíbrio se reflete nos preços: os contratos para DRAM padrão subiram entre 55% e 60% no início de 2026. Estudos indicam que os valores para memória e armazenamento quadruplicaram nos últimos três trimestres. A consequência chegou aos consumidores: em junho passado, a Apple aumentou os preços dos Macs e iPads em até 25%, enquanto o setor de smartphones também sentiu pressão semelhante.
A atração pela CXMT reside exatamente nesse gargalo: uma quarta opção para fornecimento potencialmente mais acessível poderia ajudar a Apple a controlar gastos enquanto as fabricantes tradicionais lutam para atender à demanda dos Data Centers.
Leia também:
- A Apple estaria adquirindo toda DRAM disponível para superar concorrentes
- A Apple liderou as vendas globais de smartphones no primeiro trimestre de 2026
- Os preços das memórias para smartphones dispararam e podem aumentar até 100% no próximo trimestre
Desafios políticos na aprovação das memórias chinesas
No momento, o principal obstáculo é político: A Apple aguarda o sinal verde do governo americano para utilizar os chips da CXMT além do território chinês; atualmente essa solicitação está sendo analisada pelo Departamento de Comércio.
Caso essa autorização seja concedida, o alívio financeiro ao consumidor pode demorar um pouco mais. Como grande parte da produção da CXMT já está comprometida com outros clientes atuais da fabricante, dificilmente haverá uma inundação imediata do mercado com chips acessíveis.
Além disso, há preocupações mais amplas levantadas pelo Financial Times sobre o impacto potencial da expansão apoiada pelo governo chinês nos mercados globais; existe receio que essa estratégia possa replicar situações anteriores observadas em setores como painéis solares e veículos elétricos, onde capacidades subsidiadas desestabilizaram preços internacionais e prejudicaram concorrentes estrangeiros.
No dia em que essa notícia foi divulgada, as ações da Apple apresentaram uma queda inicial antes de se recuperarem durante o pregão do dia 8 de julho.
Fontes: GSMArena e CNBC (baseado em informações do Financial Times)
