Uma colaboração entre a EMGEPRON, a AMAZUL e o Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP) permitirá que o Brasil inicie a produção de hexafluoreto de urânio (UF₆), um componente vital para o enriquecimento do combustível nuclear destinado ao submarino nuclear brasileiro, conhecido como SNCA Almirante Álvaro Alberto.
Conforme informado pelo portal Defesa em Foco, a Unidade de Enriquecimento de Urânio (USEXA) será estabelecida no Centro Industrial Nuclear de Aramar, localizado em Iperó (SP), que é considerado o principal centro tecnológico do programa nuclear naval no país.
- Leia também: Potência do BRICS deve iniciar construção do primeiro submarino nuclear da América Latina em 2025 – Revista Fórum
Esse projeto, denominado Projeto USEXA, é um dos avanços mais significativos do setor nuclear nacional nas últimas décadas. Seu propósito é garantir que o Brasil se torne autossuficiente em todas as fases do enriquecimento de urânio para a produção de energia nuclear necessária para operar o submarino em desenvolvimento pela Marinha, o primeiro desse tipo na América do Sul.
O hexafluoreto de urânio, ou UF₆, é essencial para o processo de enriquecimento isotópico do urânio, convertendo o minério processado em gás. Isso permite que o material seja utilizado nas ultracentrífugas que aumentam a concentração do isótopo urânio-235.
A ausência dessa etapa inviabiliza a produção de combustível nuclear tanto para reatores elétricos quanto para propulsão naval.
Atualmente, embora o Brasil possua reservas significativas de urânio e tenha domínio sobre parte das tecnologias de enriquecimento, ainda depende parcialmente de processamento externo em algumas etapas do ciclo nuclear, especialmente na conversão química necessária para produzir UF₆.
Documentos oficiais indicam que o Projeto USEXA tem um orçamento previsto em cerca de R$ 134,5 milhões. Esse valor inclui recursos da Marinha do Brasil e subsídios da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Conforme relatórios da EMGEPRON, a distribuição dos recursos conta com R$ 26,1 milhões já alocados pela FINEP e outros R$ 67,1 milhões previstos para os próximos anos pela mesma entidade, além da contrapartida de R$ 41,1 milhões oferecida pela Marinha brasileira.
A capacidade da USEXA será estimada em aproximadamente 40 toneladas de UF₆ anualmente. Essa quantidade poderá também ser utilizada para abastecer as usinas nucleares Angra 1 e Angra 2, conforme afirmações da AMAZUL.
Com a criação da USEXA, o Brasil passará a ter controle total sobre todas as etapas do processo que vão desde a mineração até o enriquecimento do combustível nuclear.
O desenvolvimento do SNCA Almirante Álvaro Alberto integra uma parceria estratégica estabelecida entre Brasil e França em 2008 por meio do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), com vistas ao fortalecimento da capacidade naval brasileira.
No cenário global atual, apenas seis países operam submarinos com propulsão nuclear: Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido e Índia.
Dessa forma, o Brasil se tornará o primeiro na região sul do hemisfério ocidental a dominar essa tecnologia avançada.
- Leia também: Brasil entra em nova era militar com avanço decisivo do programa de submarino nuclear – Revista Fórum
O submarino nuclear brasileiro SN-10 está sendo desenvolvido junto à Itaguaí Construções Navais (ICN), conforme os planos traçados na Estratégia Nacional de Defesa publicada em 2008. O objetivo dessa estratégia é consolidar a força naval e garantir a soberania marítima brasileira através da proteção das fronteiras oceânicas.
A entrega original estava prevista para 2029; entretanto, interrupções nos repasses anuais têm atrasado significativamente o progresso deste projeto. Com isso, o prazo para operacionalização foi estendido até 2037. Desde sua criação em 2008, estima-se que o PROSUB tenha movimentado cerca de R$ 40 bilhões considerando todos os seus projetos — incluindo tanto submarinos convencionais quanto aquele com propulsão nuclear.
Anualmente são destinados aproximadamente R$ 2 bilhões ao programa. Para manter os cronogramas iniciais estabelecidos para seu desenvolvimento seria necessário um investimento anual próximo a R$ 3 bilhões segundo as mais recentes estimativas do órgão técnico da Marinha.
- Leia também: Submarino nuclear brasileiro: o pedido urgente da Marinha para garantir projeto estratégico – Revista Fórum
A Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) ressalta que a produção de combustível nuclear é uma das cadeias produtivas mais rigorosamente controladas globalmente devido ao seu potencial dual tanto civil quanto militar. Atualmente parte desse processamento nas usinas brasileiras ainda depende de acordos internacionais que expõem o setor aos riscos das flutuações geopolíticas e cambiais.
A implementação da USEXA está alinhada ao Decreto nº 9.600/2018, que determina as diretrizes da Política Nuclear Brasileira. Em termos geopolíticos, assumir controle completo sobre todo o ciclo nuclear fortalece a autonomia internacional do país e minimiza vulnerabilidades externas nas áreas consideradas críticas.
