O bolsonarismo, atualmente, é visto como uma das expressões mais negativas da sociedade brasileira. Esse movimento de extrema direita congrega uma série de visões de mundo prejudiciais. Ao longo do tempo, o bolsonarismo passou por diversas transformações, adaptando seu discurso conforme as demandas do cenário político.
Jair Bolsonaro iniciou sua trajetória política na segunda metade da década de 1980, quando assumiu o cargo de vereador no Rio de Janeiro. Nesse período, ele utilizou um discurso que favorecia os interesses militares, buscando assim conquistar apoio para suas ambições políticas. O ex-capitão do Exército se posicionava como um defensor dos direitos das baixas patentes, embora seu verdadeiro objetivo fosse o benefício próprio e de sua família; na ocasião, ele conseguiu iludir muitos.
Além disso, a nostalgia pela ditadura militar se tornou parte de sua estratégia política. É importante ressaltar que a diminuição do poder militar após a redemocratização gerou um ressentimento considerável entre diversos membros das Forças Armadas.
Nas décadas seguintes, Bolsonaro manteve-se como um deputado federal pouco relevante, dedicando-se ao que mais lhe agradava: evitar trabalho. Porém, a partir da metade da década de 2010, ele começou a se destacar em nível nacional ao aparecer em programas populares como SuperPop (Rede TV!) e CQC (Band). Suas declarações controversas atraíam uma grande audiência – afinal, o escandaloso sempre chama atenção.
Para conquistar um número maior de seguidores fervorosos, Bolsonaro incorporou um discurso voltado para o ódio às minorias, com foco especial em homossexuais e mulheres. Sua postura misógina e homofóbica não surgiu do nada; na verdade, esse ódio às minorias era apenas uma questão secundária em sua trajetória como político extremista.
Com esse novo viés em seu discurso, era previsível que Bolsonaro se aproximasse de algumas igrejas neopentecostais que promovem a perseguição a grupos minoritários. Até mesmo um evento simbólico de batismo nas águas do Rio Jordão foi realizado pelo ex-capitão na Palestina ocupada.
Essa abordagem não só trouxe novos eleitores para sua base como também conquistou trabalhadores que anteriormente tinham votado em candidatos da esquerda. Assim, impulsionado pelas manifestações de junho de 2013, pelo impeachment de Dilma Rousseff e pelo crescente antipetismo, o bolsonarismo emergiu como um movimento popular.
No entanto, para alcançar a Presidência da República, o bolsonarismo necessitou do apoio dos grandes empresários, banqueiros e grupos midiáticos hegemônicos. Dessa maneira, foi imprescindível alinhar-se aos interesses do “Deus Mercado”.
A campanha presidencial de 2018 marcou uma transformação significativa na trajetória política de Bolsonaro. Ele passou de um militar “nacionalista”, que defendia a intervenção estatal na economia – semelhante ao personagem Enéas Carneiro – para um fervoroso defensor do neoliberalismo. Essa mudança radical estabeleceu o lema: liberal nas questões econômicas e conservador nos costumes.
No atual pleito eleitoral, o bolsonarismo acrescentou à sua retórica o conceito do coachismo. Durante um debate entre os candidatos presidenciais na Band, Flávio Bolsonaro mencionou o Ministério da Prosperidade sob influência do coach Pablo Marçal. Essa ideia representa uma adaptação da racionalidade neoliberal voltada para as massas. Agora não se trata mais apenas da meritocracia tradicional; é uma abordagem que o professor Wilson Ferreira denomina “pós-meritocracia”, onde a noção de esforço individual é substituída pela ideia simplificada de “empreendedorismo”.
A adoção desse coachismo marca uma nova fase no bolsonarismo. Em contraste com os discursos tradicionais repletos de ódio direcionados principalmente a Lula e ao PT, agora há uma tentativa de vender esperança – ainda que essa esperança seja ilusória. Pela primeira vez, o bolsonarismo apresenta uma agenda (supostamente) positiva e não se resume apenas ao ressentimento. Isso pode explicar seu crescimento entre as populações mais pobres e vulneráveis.
Bourdieu afirmava que a magia é a esperança daqueles que não têm esperança. Referindo-se à análise do sociólogo francês, podemos ver que o bolsonarismo agora se posiciona como símbolo da esperança para muitos brasileiros desiludidos. Contudo, é evidente que a “prosperidade” defendida por esse movimento diz respeito apenas à elite econômica. Como representação de classe, seu desprezo pelos pobres é um dos pilares centrais.
No âmbito discursivo, o bolsonarismo luta não somente pelo controle da narrativa sobre o passado – aspirando por tempos “ideais” com hierarquias sociais rígidas – mas também pelo futuro imaginado por meio do coachismo. Esta aparente promessa de prosperidade tem grande ressonância entre as classes menos favorecidas durante períodos críticos. O bolsonarismo representa essa mágica à qual Bourdieu se referia ao transformar desilusão em adesão.
*Este artigo não reflete necessariamente a opinião da Fórum.
