Doutor Monstro”: O Impactante Lado Sombrio do True Crime Brasileiro em Cartaz

Um crime que abalou o Brasil

Com estreia programada para o início de setembro, o longa-metragem “Doutor Monstro” já começa a atrair a atenção dos admiradores do gênero true crime. Sob a direção de Marcos Jorge, conhecido pelo aclamado “Estômago”, o filme é baseado na história verídica do cirurgião plástico e endocrinologista Farah Jorge Farah, que cometeu um crime horrendo em São Paulo em 2003 ao assassinar e esquartejar uma ex-paciente.

Exibição inaugural no Cine PE

A première do filme ocorreu no início da semana durante a 30ª edição do Cine PE, um renomado festival de cinema realizado em Recife. Na ocasião, o diretor compartilhou detalhes sobre os bastidores da produção, que conta com atuações de Taís Araujo (“Vale Tudo”), Marat Descartes (“Beleza Fatal”) e Guilherme Weber (“Volta por Cima”). A narrativa mescla humor ácido e drama judicial para reconstituir os desdobramentos do caso no sistema judiciário.

Tribunal em foco: uma reflexão sobre feminicídio

No mês de janeiro de 2003, Maria do Carmo Alves, uma dona de casa, foi atraída ao consultório de Farah sob a falsa promessa de um procedimento estético. No local, ela foi sedada e esquartejada enquanto ainda estava viva. Ao invés de se concentrar apenas na brutalidade do crime, “Doutor Monstro” dedica boa parte do segundo ato à representação da batalha legal, estruturando-se como um típico “filme de tribunal”.

Segundo o diretor, essa abordagem judicial destaca a realidade da violência contra as mulheres em uma época anterior à promulgação de leis como a Maria da Penha e à tipificação do feminicídio no Código Penal.

Personagens adaptados para a ficção

No papel da promotora, Taís Araujo interpreta uma personagem que sofreu alterações em relação à figura real, sendo retratada como uma mulher negra empenhada em garantir a condenação do réu. O advogado de defesa, vivido por Guilherme Weber, também passou por adaptações na ficção, inspirado nas dinâmicas reais dos principais criminalistas do país.

A nomeação da vítima na trama foi alterada para Carmen (interpretada por Marcelina Fialho), fazendo alusão à ópera de Georges Bizet e simbolizando a espetacularização e os julgamentos machistas enfrentados pela vítima tanto pela mídia quanto pela sociedade.

Contrastes na figura do criminoso

O roteiro se propõe a explorar as dualidades do médico, amplamente considerado um cidadão exemplar e religioso na comunidade de Santana, mas que mantinha comportamentos abusivos com suas pacientes. A produção refaz a tese defensiva que alegava que Maria do Carmo perseguia o médico devido a um suposto relacionamento amoroso extraconjugal, desconstruindo assim a imagem que Farah tentava projetar como uma “boa pessoa”.

Psicólogos consultados pela equipe criativa traçaram comparações entre Farah e vilões icônicos do cinema como Norman Bates, de “Psicose”, e Buffalo Bill, de “O Silêncio dos Inocentes”.

Na realidade, após cumprir menos de quatro anos em regime fechado por seus crimes, Farah Jorge Farah conseguiu responder ao processo em liberdade. Entretanto, em 2017, foi determinado pela Justiça seu retorno imediato ao cárcere. Ao tentarem cumprir o mandado em sua residência, os policiais encontraram o médico morto por suicídio sob circunstâncias grotescas: vestido com roupas femininas e implantes de silicone enquanto uma música fúnebre de Mozart ressoava pelo ambiente.

By Bauru Report

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