A relação entre a produtividade agrícola de uma nação e a quantidade de terra fértil e água doce disponível foi, por muito tempo, considerada direta. Contudo, inovações tecnológicas na agricultura estão transformando essa dinâmica. Para países pequenos, insulares ou aqueles que enfrentam escassez hídrica, a combinação de dessalinização da água do mar com técnicas hidropônicas surge como uma alternativa promissora: é possível cultivar alimentos utilizando menos solo e, em sistemas adequadamente projetados, uma quantidade reduzida de água doce convencional.
A hidroponia possibilita o cultivo sem solo ao fornecer diretamente água e nutrientes às plantas. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) aponta que essa abordagem é especialmente vantajosa em áreas com pouca terra arável ou solos de qualidade inferior, podendo economizar até 90% da água em comparação com métodos tradicionais. Em sistemas fechados, uma parte significativa da solução nutritiva é reciclada, minimizando o desperdício de água e fertilizantes.
É importante notar que a hidroponia não cria novas áreas cultiváveis. O aumento na produtividade se torna ainda mais evidente quando ela é utilizada em conjunto com estufas de alta eficiência, cultivo vertical ou estruturas multicamadas. Essa forma controlada de agricultura permite a produção em massa de vegetais, ervas e outros produtos alimentares valiosos em pequenas áreas. Para países menores, isso indica que as limitações territoriais não precisam ser um obstáculo absoluto à produção agrícola.
Neste contexto, a dessalinização assume um papel estratégico significativo. Um país costeiro pode transformar um recurso praticamente infinito presente nas suas fronteiras — a água do mar — em uma fonte confiável para irrigação. Isso evita que a agricultura concorra constantemente com urbanização, turismo e indústrias pelo uso de aquíferos e reservatórios de água doce; parte da produção pode ser sustentada por uma fonte hídrica independente das chuvas.
Esse raciocínio se torna crucial para economias insulares menores. Cabo Verde é um exemplo claro: apenas cerca de 10% do seu território é considerado arável, e entre 2000 e 2022 apresentou uma dependência superior a 78% das importações alimentares, conforme estudos recentes do Banco Mundial. Embora produzir determinados vegetais localmente não elimine totalmente as importações — algo inviável para muitos pequenos países — essa abordagem pode ajudar a reduzir vulnerabilidades específicas e aumentar a capacidade de resposta diante de secas, conflitos ou flutuações nos preços internacionais.
A tecnologia já saiu do campo das hipóteses
Um exemplo notório dessa integração está na Austrália. Em Port Augusta, no sul do país, a Sundrop Farms opera uma estufa com cerca de 20 hectares que combina energia solar, dessalinização da água do Spencer Gulf e cultivo hidropônico. Segundo informações da própria empresa, a água gerada pela dessalinização é misturada com nutrientes para irrigar as plantações. Documentos oficiais australianos também confirmam os 20 hectares dedicados às estufas climatizadas e o uso de energia solar concentrada para dessalinizar a água do mar retirada da região.
Este projeto fornece um exemplo claro da integração comercial: água do mar → dessalinização → produção de água doce → cultivo hidropônico de tomates. O sistema foi desenvolvido exatamente para reduzir a dependência das chuvas e fontes convencionais de água doce em uma área árida. Documentos australianos descrevem essa operação como uma agricultura desvinculada das oscilações climáticas, aproveitando simultaneamente energia solar e água do mar.
A relevância desse caso não está apenas na dimensão territorial da Austrália, mas sim na localização do projeto. Ele demonstra como ambientes áridos com escassez hídrica podem ser convertidos em ativos produtivos quando há um planejamento conjunto entre recursos hídricos, energéticos e agrícolas.
A Espanha também apresenta evidências consistentes sobre esse tema. No sudeste espanhol, pesquisadores têm testado o uso de água do mar dessalinizada para cultivar tomates e alfaces em sistemas hidropônicos. Experimentos realizados em Almería utilizaram água proveniente da dessalinizadora de Carboneras em sistemas hidropônicos que incorporam substrato feito com fibra de coco e reutilizam drenagem. Estudos publicados entre 2020 e 2026 demonstram que essa integração é tecnicamente viável e continua sendo otimizada quanto à produtividade, qualidade dos produtos finais e eficiência no uso da água e energia.
Os experimentos realizados na Espanha tornam esse exemplo ainda mais tangível. Em um trabalho publicado em 2025 pela Universidade de Almería, tomates cultivados sob estufas foram submetidos a diversas misturas hídricas, incluindo um tratamento que utilizou exclusivamente água do mar dessalinizada proveniente da planta mencionada anteriormente; isso foi comparado ao cultivo convencional em solo. Outro estudo entregue para edição de 2026 da revista Agriculture focou no cultivo hidropônico aberto utilizando apenas água dessalinizada do mar. Assim sendo, existem cultivos experimentais documentados onde se utiliza efetivamente água salgada após o processo de dessalinização na hidroponia.
Além disso, um experimento elucidativo envolvendo alface hidropônica no sudeste espanhol analisou sistemas utilizando diferentes concentrações (0%, 50% e 100%) de água do mar dessalinizada. O sistema NFT resultou em um uso 62% menor de água comparado ao cultivo convencional em solo avaliado no estudo anterior enquanto apresentava maior produtividade hídrica; no entanto, o aumento no uso de água dessalinizada elevava o consumo energético total. Os pesquisadores concluíram que unir agua desalinizada à hidroponia pode ser uma estratégia válida para manter altos níveis produtivos agrícolas mesmo em regiões afetadas por escassez hídrica — especialmente quando aliadas a fontes energéticas renováveis.
Dentro dessas pesquisas sobre alface no sudeste espanhol ficou claro que integrar águas dessalinizadas à hidroponia melhora tanto a produtividade quanto eficiência hídrica frente aos métodos convencionais; contudo esse processo também demanda maior consumo energético — aspecto fundamental a considerar: a dessalinização não transforma automaticamente a agua salgada numa solução agrícola sem custos ambientais ou econômicos significativos. Sua viabilidade depende fortemente da eficiência energética envolvida além da crescente conexão com fontes renováveis.
As Ilhas Canárias oferecem outra experiência interessante ao discutir tanto as produções quanto os resíduos gerados pela dessalinização. Com mais de meio século lidando com essa técnica, o arquipélago já incorpora o uso dessa agua tratada na agricultura nas ilhas Gran Canaria, Lanzarote e Fuerteventura.
Em um experimento nas Canárias realizado por pesquisadores foi estudado ainda o reaproveitamento da salmoura rejeitada pelos processos industriais anteriores; após tratamento adequado essa corrente salina serviu como insumo mineral para sistemas hidropônicos utilizados no cultivo dos tomates mencionados anteriormente. Esse estudo revelou como é possível transformar um resíduo gerado pela dessalinização num insumo útil para outro tipo produtivo; embora isso não se confunda com irrigação direta utilizando agua tratada pelo processo anterior abre uma nova perspectiva bastante interessante sobre economia circular nesse modelo produtivo.
No Qatar também houve testes envolvendo integração entre águas marítimas tratadas via dessalinização solar associadas à produção agrícola protegida atravésdo Sahara Forest Project. Este projeto utilizou calor solar para gerar agua destilada para irrigação das plantas enquanto usava agua salgada na climatização das estufas localizadas numa área desértica; os resultados mostraram que tecnologias solares podem operar juntas à dessalinização proporcionando colheitas viáveis mesmo sob condições extremas.
No projeto qatari foram implementadas estruturas externas destinadas ao cultivo específico halófitas (plantas tolerantes ao sal). Nas estufas estabelecidas utilizou-se agua destilada oriunda da dessalinização obtendo-se produtividades comparáveis às operações comerciais europeias mas com consumo significativamente menor quando se fala sobre recursos hídricos doces comparando-se às estufas locais semelhantes; vale ressaltar que este projeto deve ser compreendido como algo além dos modelos convencionais pois sua grande contribuição vem precisamente dessa interação inovadora entre estufas tradicionais juntamente ao manejo eficiente dos recursos disponíveis .
Israel merece destaque especial neste contexto devido à sua vasta experiência consolidada no uso agrícola eficiente tanto das águas não convencionais quanto pela implementação maciça dos processos relacionados à dessalinização . Pesquisadores já identificaram Israel juntamente ao sudeste espanhol bem como as Ilhas Canárias como regiões onde existe relevante utilização agrícola desse tipo específico – recentemente cientistas ligados à Universidade Ben-Gurion modelaram um sistema industrial integrando aquicultura , hidroponia juntamente a unidade dedicada exclusivamente à dessalinizaçao visando maximizar eficiência hídrica alcançando notáveis índices acima dos usuais , embora isso não signifique que toda hidroponia israelense esteja atualmente abastecida diretamente por águas tratadas desse modo .
Um exemplo prático sobre integração direta entre águas tratadas via desse tipo está sendo realizada pelo centro pesquisador Haifa Group, onde desenvolveu-se sistema NFT começando pelo reservatório contendo somente agua purificada antes desta receber nutrientes específicos ; depois circula através dos canais onde ficam expostas raízes retornando assim ao tanque inicial sendo novamente reutilizada posteriormente . Isso mostra claramente quão útil pode ser qualidade superior proporcionada pelos processos necessários dentro desse modelo fechado garantindo durabilidade diante acúmulo excessivo sais durante recirculação previamente citadas .
Novas experiências estão sendo desenvolvidas buscando ampliar horizontes sobre potencialidade real desses projetos inovadores . Um trabalho científico publicado recentemente (2024) focou especificamente ambientes marítimos , ilhas bem como instalações offshore criando plataforma integrativa combinando evaporação solar interfacial junto ao cultivo hidropônico voltado principalmente vegetais ; neste estudo validou-se conceito autossustentável sem depender eletricidade externa tendo criado modelo gerenciamento hídrico voltado particularmente alfaces; embora ainda seja experimental representa avanço significativo engenharia desenvolvida justamente transformando oceanos numa possibilidade nutricional mesmo onde há escassez total solos adequados .
Tais exemplos delineiam claramente atuais possibilidades oferecidas pelas tecnologias modernas ; Austrália exemplifica operações comerciais amplas , Espanha evidencia base experimental robusta incluindo cultivos específicos utilizando exclusividade agua marinha tratada ; Ilhas Canárias avançam diante problemática salmoura promovendo circularidade ; Qatar promove interação entre soluções solares/estufas/cultivos desérticos ; Israel apresenta aplicações diretas aliadas infraestrutura agronômica favorável permitindo aprofundar tais convergências além disso novos sistemas exploratórios começam expandir ideias sobre plataformas agrícolas quase autônomas voltadas ambientes insulares/marítimos
Cabo Verde: onde a convergência parece particularmente lógica
Cabo Verde destaca-se como um exemplo interessante onde poderia ocorrer implementação eficaz dessa abordagem pública estruturante . Atualmente já discute-se muito mais que apenas adoção práticas relacionadas à agricultura através desse método ; durante março 2026 inaugurou-se segunda fase infraestrutura voltada especificamente à atividades agropecuárias situada São Domingos permitindo distribuir diretamente aos agricultores quantidades significativas suficiente atingindo até cerca oitocentos mil metros cúbicos anuais . Programa cabo-verdiano contempla intervenções também outras ilhas além municípios adjacentes .
Cabe ressaltar que há experiências práticas ligadas diretamente hidroponia desenvolvidas localmente : estudo realizado Banco Mundial documentou atuação Milot Hidroponics, localizada ilha Sal possuindo meio hectare permitindo produção aproximando vinte cinco mil pés alfaces mensalmente ; apesar disso não se pode afirmar ligação direta atual toda produçãocom novas unidades industriais descritas anteriormente , todavia permite concluir algo ainda mais relevante: atualmente Cabo Verde possui competências distintas dentro mesmo território nacional necessitando serem conectadas maior escala possível .
Ainda existe elemento adicional reforçando esta hipótese . Estudo anteriormente mencionado Banco Mundial aborda modelos autossustentáveis projetados baseados principal fornecimento aguas tratadas por fontes renováveis alinhando perfeitamente contexto referencial cabo-verdiano ; portanto converge igualmente discussões acerca intersecção entre tecnologias energéticas renováveis junto práticas agrícolas sustentáveis futuras planejamentos nesse sentido tornam-se fundamentais evolução debate econômico agrário arquipélago .
Quais países deveriam olhar seriamente para esse modelo?
Pessoalmente acredito melhor maneira identificar candidatos adequados nem sempre simplesmente questionar quais países têm litoral marítimo disponível ; modelo revela-se especialmente interessante quando quatro condições coexistirem simultaneamente : proximidade litoral + ausência recursos hídricos + limitações espaço cultivável + dependência significativa importações alimentos frescos
- Cabo Verde aparece naturalmente dentre principais candidatos;
- Singaore configura outro exemplo extraordinário : país informa cerca noventa porcento alimentos importados apenas aproximadamente um porcento território disponível atividades agrícolas;
- Maldívas constituiri candidato claro visto somente possui cerca vinte sete km² área cultivável dependendo quase totalmente importações alimentares;
- E por último Chipre igualmente insular enfrentando ciclos repetitivos secas já utiliza processos similares garantindo segurança hídrica necessária através instâncias consolidadas construção infraestrutural adequadamente adaptativa visando atender demandas atuais necessidades agrícolas locais
No entanto vale destacar decisões estratégicas relevantes considerando especificidades locais cada região envolvida neste debate , não bastaria apenas ter capacidade instalada melhorar capacidades existentes mas sim decidir quanta será integrada eficientemente visando atender demandas crescentes contemporâneas dentro contextos climáticos variados exigindo soluções inovadoras principalmente focando sustentabilidade ecológica enquanto promovemos segurança alimentar duradoura equitativa acessível todos cidadãos envolvidos ! p>
Nenhuma inovação tecnológica vem sem custos associados p >
Defendendo estratégias apresentadas aqui não significa romantizá-las ou ignorar preocupações inerentes processos envolvidos : osmose reversa consome energia significante , necessidade correta gestão resíduos salinos permanece constante enquanto águas produzidas tendem carecer tratamentos específicos adequados antes serem utilizadas explicitamente funções agrícolas apropriadas pois geralmente apresentam deficiência minerais essenciais exigindo complementação nutrientes conforme composição original bem assim ajustes necessários cálcio magnésio alcalinidade elementos afins observações pertinentes inclusive boro requer vigilância rigorosa durante processos relacionados especificamente destinados este setor .
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Portanto sistema ideal deveria mostrar complexidade intrínseca comporinte além simplista linearidade proposta inicialmente : mar → aproveitamento sustentável baixo carbono → correção mineral adequada→ soluções nutritivas → manejos responsáveis ambientais visando minimizar impactos negativos decorrentes eventual geração salmoura ! Dentro possibilidades climáticas favoráveis , ações voltadas energias alternativas poderão proporcionar redução pegadas ambientais deste ciclo completo agregando valor considerável resultados obtidos.
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Para pequenas localidades costeiras arquitetura criada poderá representar algo mais importante simplesmente nova técnica agrícola isoladamente aplicada ! Pode transformar limitações históricas vinculativas territórios diminutos existentes restrições aquáticas próximas oceanos numa nova lógica produtiva sustentável ! Não deveríamos buscar substituir toda agricultura tradicional tampouco criar situações artificiais autossuficiência alimentar generalizada pois cereais oleaginosas diversas culturas extensivas obedecem lógicas econômicas diferenciadas porém devemos reconhecer importância parcela produtos frescos hortaliças folhas ervas tomates podendo estar produzidas próximas centros consumidores durante todo ano ocupando espaços reduzidos .
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A mudança perspectiva permitirá refletir futuramente questionamento “quanto alimento conseguimos produzir segura cada metro quadrado disponível ?” devido esta transição conceitual associativa possibilitará unir esforços conjuntos visando garantir resiliência hídrica alimentar territorial futura !
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*Ana Beatriz Prudente Alckmin autora livro “Ela Sua Gata Tel Aviv”, pedagoga Universidade São Paulo investigadora Direitos Humanos além diversas funções administrativas sociais filantrópicas atuações públicas várias organizações cívicas. strong > p >
**Artigo não necessariamente reflete opinião Fórum. em > p >
