Solidariedade em tempos de desafios: a mensagem do pastor Zé Barbosa Jr ao Galo de Luta

Caro irmão Galo de Luta,

Estou redigindo esta carta com uma profunda consideração. Respeito sua trajetória, a força da sua voz e o empenho que você demonstra — uma luta significativa. Mobilizar trabalhadores em situações vulneráveis, como os motoboys, demanda coragem e um verdadeiro senso de justiça. É fundamental reconhecer isso antes de abordarmos qualquer divergência.

Entretanto, devido ao peso da sua voz, é importante analisar com atenção algumas das ideias que você apresentou.

Você fez uma analogia futebolística para discutir sobre a esquerda, sugerindo que cada um deve atuar em sua posição sem se misturar muito com os outros, como se isso fosse algo positivo. Contudo, no contexto do futebol real, essa ideia é invertida. O funcionamento de uma equipe depende precisamente da sinergia entre diferentes posições. O lateral não desempenha a função do centroavante e o volante não é o goleiro — mas todos estão engajados na mesma partida. E o mais crucial: as ações de um jogador impactam todo o time.

Se o zagueiro comete um erro, o goleiro arca com as consequências.
Se o atacante falha em marcar um gol, a defesa sofre pressão.
E se um atleta é injustamente perseguido ou expulso, toda a equipe se torna mais vulnerável.

A lógica do trabalho em equipe não exige uniformidade — requer que todos compreendam que estão no mesmo lado do campo.

Quando você questiona por que um motoboy deveria “defender isso ou aquilo”, talvez a questão esteja mal formulada. Não se trata de um conjunto fixo de ideias a serem aceitas. A discussão envolve reconhecer que direitos não são compartimentos isolados.
Hoje é a discriminação contra um determinado grupo.
Amanhã pode ser contra o seu.

Quando um trabalhador aceita que outro seja desrespeitado, estabelece um perigoso precedente — pois o sistema que precariza um atinge todos. A história já demonstrou isso claramente.

Outro aspecto relevante é a maneira como você se refere à comunidade LGBT. Utilizar termos depreciativos, mesmo alegando que “é assim que os trabalhadores falam”, não resolve a situação — apenas perpetua divisões. Os trabalhadores também têm a capacidade de aprender e evoluir em sua linguagem. O respeito não deve ser visto como privilégio de elite; é essencial para qualquer luta coletiva.

No tocante ao pastor Henrique Vieira, há uma confusão que merece esclarecimento.

A crença de que um pastor só vale algo se tiver uma congregação lotada e grandiosa se aproxima mais de uma visão empresarial da religião do que dos ensinamentos do evangelho. Este argumento é precisamente utilizado pela extrema-direita para tentar “desqualificar” Henrique no Congresso.

No entanto, devemos considerar:
Jesus não possuía uma megaigreja.
Não tinha templo próprio.
Pregava em pequenas sinagogas, praças públicas e áreas periféricas, sempre dialogando com pessoas simples e marginalizadas.

Se o critério for apenas o tamanho da audiência, então até mesmo Jesus não passaria nesse seu teste nem na avaliação da bancada evangélica.

Henrique Vieira pode não ser o tipo de líder religioso midiático e espetacular ao qual você está habituado — mas isso não diminui sua legitimidade como pastor. Na verdade, pode aproximá-lo de uma tradição mais antiga e enraizada na simplicidade e no cuidado pelas pessoas.

E quanto à afirmação de que “pastores não defendem LGBT”, é importante lembrar: a função de um pastor não é decidir quem merece dignidade; seu papel é cuidar das pessoas. De todas as pessoas.

No fundo, Galo, sua indignação possui fundamentos válidos: ninguém aprecia ser encaixado em rótulos ou agendas impostas. No entanto, a resposta para essa situação não deve ser o afastamento do outro — mas sim ampliar a compreensão do coletivo.

Nem todos precisam ter as mesmas opiniões.
Mas todos devem entender que estão jogando no mesmo time.

E talvez valha uma reflexão final: você possui força, influência e voz. Em certas ocasiões, ouvir mais e falar menos pode abrir portas que gritos nunca alcançam.

Isto não diminui sua luta.
Ao contrário, potencializa-a ainda mais.

Estamos no mesmo campo — ainda que em posições distintas.

Com consideração.

Zé Barbosa Jr – pastor dedicado ao cuidado das pessoas

*Este artigo não representa necessariamente a opinião da Revista Fórum

By Bauru Report

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